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Aumento dos fretes internacionais: como a guerra pressiona custos, prazos e decisões no comércio exterior

Mais de 80% do comércio mundial em volume passa pelo transporte marítimo, e a UNCTAD vem destacando que tensões geopolíticas, desvios de rota, maior consumo de combustível e seguros mais caros estão tornando a volatilidade dos fretes uma nova norma. Mesmo quando há sinal diplomático de alívio, o retorno à normalidade pode levar semanas porque seguradoras, armadores e operadores continuam avaliando risco real de navegação

Os fretes internacionais voltaram ao centro da agenda do comércio exterior. O motivo não é apenas uma oscilação de mercado, mas a combinação entre conflito geopolítico, risco marítimo, aumento do bunker fuel e cautela operacional dos armadores diante de rotas sensíveis no Oriente Médio. Em 18 de junho de 2026, o Drewry World Container Index subiu 12% na semana, para US$ 3.969 por contêiner de 40 pés, no maior nível em 18 meses.

Esse movimento importa diretamente para empresas brasileiras porque o transporte marítimo segue sendo a espinha dorsal do comércio global: mais de 80% do volume do comércio internacional de mercadorias é transportado por mar. Quando uma crise afeta corredores estratégicos, o impacto não fica restrito à rota original. Ele se espalha por combustível, seguro, disponibilidade de navios, reposicionamento de contêineres, renegociação contratual e formação de preço em diferentes mercados.

O que está pressionando os fretes agora

A atual pressão sobre os fretes está ligada aos efeitos da guerra envolvendo Irã e Estados Unidos, que elevou o risco percebido em torno do Estreito de Ormuz e de outras rotas estratégicas da região. A Reuters informou em 10 de junho que o custo de embarcar um contêiner de 40 pés da Ásia para os Estados Unidos praticamente dobrou desde o início do conflito, enquanto o bunker fuel subiu 55%. Esse aumento de combustível, somado ao receio de novas disrupções, está sendo repassado ao mercado por meio de sobretaxas e revisão de contratos.

Mesmo com sinais diplomáticos de alívio em meados de junho, o mercado não voltou imediatamente à normalidade. A Maersk afirmou em 15 de junho que recebeu positivamente o acordo entre EUA e Irã, mas não alterou suas operações no Oriente Médio naquele momento. No mesmo período, a Reuters reportou que os embarcadores continuavam cautelosos para retomar o trânsito por Ormuz, aguardando garantias concretas de segurança e limpeza de minas.

Na prática, isso significa que o frete não sobe apenas porque a rota ficou mais longa ou mais arriscada. Ele sobe porque toda a cadeia passa a operar com mais incerteza. Quando seguradoras, armadores e embarcadores reprecificam risco ao mesmo tempo, o custo logístico deixa de ser uma variável pontual e passa a ser um componente central da estratégia comercial. Essa é a diferença entre tratar o tema como notícia e tratá-lo como gestão de operação.

Por que isso afeta empresas brasileiras

Para empresas brasileiras, o impacto do aumento dos fretes internacionais vai além do pagamento ao armador. O primeiro efeito é o mais visível: importar ou exportar fica mais caro. O segundo é menos óbvio, mas igualmente relevante: o frete internacional influencia o custo total da operação e pode alterar margem, preço de venda, necessidade de capital de giro e planejamento de estoque.

No caso da importação, há ainda um ponto técnico importante. A Receita Federal informa que os componentes do frete internacional devem ser declarados na DI, e o valor aduaneiro considera, em regra, o valor da mercadoria somado aos acréscimos aplicáveis, incluindo frete e seguro. Em outras palavras, quando o frete sobe, ele não pressiona apenas a despesa logística: pode também ampliar a base econômica sobre a qual incidem tributos vinculados ao valor aduaneiro.

Além disso, operações de transporte aquaviário podem estar sujeitas ao AFRMM, encargo disciplinado pela Lei nº 10.893/2004. Isso reforça um ponto que muitas empresas subestimam em momentos de crise logística: o aumento do frete pode ter reflexo financeiro ampliado quando se observa a operação de forma integrada, e não apenas o valor do frete isoladamente.

O reflexo nas operações com China, Estados Unidos e América Latina

Empresas que compram da China tendem a sentir rapidamente o efeito desse ambiente, mesmo quando a carga destinada ao Brasil não passa exatamente pela mesma rota da crise. Isso acontece porque a rede marítima global funciona de forma interdependente. Quando uma parte relevante da malha é reprecificada, desviada ou operada com cautela, o efeito se espalha por outras rotas por meio da gestão de capacidade dos armadores e do reposicionamento de equipamentos. Essa leitura é uma inferência operacional sustentada pelo comportamento recente dos índices e pela postura cautelosa das companhias de navegação.

Nas operações ligadas aos Estados Unidos, o impacto aparece de forma ainda mais clara. A Reuters mostrou que importadores norte-americanos aceleraram embarques para antecipar custos mais altos de combustível, e o Porto de Los Angeles registrou em maio seu segundo maior volume histórico de importações mensais. Esse comportamento mostra como o mercado já está reagindo defensivamente ao risco logístico, antecipando compras e pressionando ainda mais a rede de transporte.

Para a América Latina, o efeito tende a ocorrer por contágio logístico e comercial. Quando grandes trades globais passam a absorver mais capacidade, exigir mais combustível ou aceitar preços mais altos, as demais rotas deixam de operar em ambiente estável. Isso é particularmente relevante para empresas brasileiras que dependem de previsibilidade para planejar abastecimento, produção e negociação com fornecedores e clientes.

Quais riscos as empresas devem observar

O primeiro risco é tomar decisões com base em um frete que já deixou de existir. Em cenários de guerra e volatilidade marítima, cotações envelhecem rápido. Uma operação aprovada com margem apertada pode se tornar menos competitiva em poucos dias se a empresa não revisar custo landed, cronograma e preço final.

O segundo risco é tratar o aumento do frete apenas como problema logístico. Em muitas operações, ele se transforma em risco financeiro e tributário. Se a empresa não reavalia a composição do custo total, pode precificar mal, comprometer rentabilidade ou até reduzir competitividade sem perceber a origem do problema.

O terceiro risco é confiar em uma normalização imediata. Embora haja sinais de reabertura e alguns movimentos de retorno, a Reuters reportou que a limpeza de minas e a retomada segura do tráfego podem levar semanas, e a cautela de operadores ainda permanece. Isso significa que a fase mais crítica pode mudar de forma, mas não desaparece automaticamente.

Onde estão as oportunidades estratégicas

Crises logísticas também forçam empresas a amadurecer sua estrutura operacional. Em vez de apenas reagir à alta do frete, companhias mais preparadas usam esse tipo de cenário para revisar Incoterms, renegociar contratos com fornecedores, recalcular estoque de segurança, redesenhar janelas de compra e avaliar alternativas de origem ou consolidação de carga.

Esse é também o momento para elevar o nível da análise de importação. Não basta perguntar quanto ficou o frete. A pergunta correta é: qual passou a ser o custo real da operação, com impacto em prazo, tributação, giro e competitividade? Empresas que conseguem responder isso com rapidez tendem a preservar margem, tomar decisões com mais previsibilidade e capturar oportunidades antes do restante do mercado. Essa conclusão decorre da combinação entre a dinâmica atual dos fretes, os reflexos no valor aduaneiro e a instabilidade ainda presente nas rotas sensíveis.

O que avaliar agora na prática

Diante desse cenário, empresas brasileiras que importam ou exportam deveriam revisar imediatamente cinco pontos: custo landed atualizado, impacto do frete na base econômica da operação, exposição contratual a sobretaxas, dependência de rotas ou fornecedores mais vulneráveis e nível de estoque necessário para absorver atrasos. Esses pontos decorrem diretamente do comportamento recente dos índices de frete, da cautela operacional dos armadores e das regras brasileiras de valoração aduaneira.

Mais do que acompanhar a guerra, o ponto central é entender como ela se traduz em custo, prazo, previsibilidade e risco para a empresa. No comércio exterior, eventos geopolíticos raramente ficam restritos ao noticiário. Eles entram na operação, alteram a conta e exigem revisão de estratégia.

Conclusão

O aumento dos fretes internacionais ligado à guerra não deve ser lido como um episódio isolado. Ele é um sinal de que a logística global continua vulnerável a choques geopolíticos e de que a previsibilidade do comércio internacional depende cada vez mais de leitura estratégica. Para empresas brasileiras, isso exige mais do que acompanhar índices. Exige revisar estrutura de custo, proteger margem e adaptar a operação com agilidade.

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